SALVO PELO GONGO: PARTE 1
- Rosa Carvalho
- 6 de ago. de 2014
- 3 min de leitura

1ª. Parte
— Boy, me dê uma dose dupla daquele veneno que você tem aí debaixo do balcão.
O proprietário da taverna olhou para homem alto, loiro e com olhar agitado, como se tivesse visto fantasma. Intrigado, estendeu um copo e a garrafa com o líquido âmbar. Os outros clientes, encostados no balcão ou assentados nas rústicas cadeiras, olharam com curiosidade para o recém chegado, conhecido de todos. O loiro encheu o copo.
Ninguém disse nada até que ele tomou de um só trago a dose reforçada do forte uísque.
— Boy, estava precisando disso, ele disse, enxugando os lábios com a costa da mão esquerda. — Hoje consegui salvar um das garras da morte.
Os companheiros aproximaram-se para ouvir que John Gong tinha a dizer.
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John “Gong” Mac-Fadden foi um dos personagens mais conhecidos da cidade de Manchester. No começo de sua vida tinha sido coveiro do cemitério da cidade.
Por força de sua profissão, que exerceu por quase duas décadas (entre 1612 e 1628) observou, quando da exumação de cadáveres, que diversos corpos não estavam na posição em que tinham sido enterrados. Teriam sido enterrados vivos e se movimentado dentro dos caixões, na tentativa de sair ou no desespero de saberem-se definitivamente condenados à morte por falta de ar.
A medicina daquela época ainda não tinha meios para diferenciar certos estados de catalepsia da morte verdadeira. As pessoas que caiam vítimas de tal estado eram dadas como mortas, inclusive pela imobilidade, confundida com o rigor mortis.
John (que, como coveiro, não tinha apelido) Mac-Fadden ficou obcecado com a idéia de uma pessoa ser enterrada viva. Desesperou-se ao imaginar como uma pessoa enterrada viva poderia, ao voltar do estado de morte aparente, safar-se daquela situação e voltar à superfície.
Naturalmente com ajuda de alguém, pensou
Escocês habilidoso e cheio de idéias dedicava-se, nas horas que passava em casa, a fazer objetos com movimentos: bonecos articulados, brinquedos que pareciam ter vida; miniaturas de navios à vela que funcionavam perfeitamente no pequeno lago do parque municipal e pequenos objetos de enfeites, movidos por molas e tiras elásticas.
Enquanto abria e fechava covas, ficava pensando na situação de um enterrado-vivo. Imaginava-se ele mesmo num caixão, sob mais de meio metro de terra sobre si. O sufoco de saber-se definitivamente lacrado, sem saída, a falta de ar, a morte chegando lenta e inexoravelmente...
Tinha compaixão por aquelas poucas pessoas que passaram por tão terrível situação.
Pensa que pensa, e usando de sua habilidade para mecânica, John imaginou um dispositivo que poderia ajudar as pessoas a sair de tão trágica situação.
Tal engenhoca, considerada a principio uma idiotice, ficou sendo conhecida como “O gongo de Mac-Fadden”. Era a reprodução de um gongo oriental: um fino disco de metal, de mais ou menos trinta centímetros, dependurado em uma armação de madeira. Acoplada à armação estava uma peça, semelhante a um martelo, com movimento, acionada por um fio. Quando fio era puxado acionava a peça de madeira, que batia no disco de metal, emitindo um som claro e audível por centenas de metros. A sensibilidade do martelo era tão grande que respondia a qualquer puxão do fio, por mais fraco que fosse.
A administração do cemitério era competência do Bispo da Igreja de Saint Peter, a quem Mac-Fadden apresentou o seu dispositivo.
— Como é que um aparelho tão simples assim pode salvar uma pessoa enterrada viva? — Foi a primeira pergunta feita pelo bispo.
A audiência se dera na presença de diversas autoridades da cidade, que olhavam com desdém (inclusive o bispo, pela entonação sarcástica que dera à pergunta). Mac-Fadden não se intimidou e explicou:
— O gongo fica ao lado da sepultura. O fio passa por um fino cano que vem do caixão até a superfície. Uma ponta do fio é amarrada á mão do enterrado, a outra ponta na extremidade do martelo. Qualquer movimento que o enterrado fizer, irá movimentar o martelo, fazendo-o bater no gongo e alertando a quem estiver por perto.
Passando à demonstração, o inventor fez passar o fio através de um cano estendido no chão, ao lado do gongo, e amarrou no seu próprio polegar. Um pequeno movimento de seu dedo foi o bastante para acionar a peça móvel, que bateu no disco de bronze. Um tinido claro e forte foi ouvido no recinto, e alguns assistentes emitiram “ahs” e “ohs” de surpresa.
— E quem ouvirá esse gongar? Como sabemos o cemitério não tem habitantes vivos!
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